
Continuação...
Contra a parede, Chico só viu uma solução para continuar a trabalhar, lançar um novo disco. Mas esse não poderia ser de inéditas (a ditadura não liberaria suas letras), e ele recusava-se definitivamente, a re-gravar velhos sucessos como A BANDA ou RODA VIVA.
Chico não queria olhar para trás, a única forma de fazer um disco inédito, sem música suas, seria fazer um disco de interprete, cantando músicas de outros autores.
Como disse no texto anterior, não havia idéia mais simples, mas o artista transforma o banal em especial.
Chico foi advertido que seu valor de interprete no mercado era reduzido. Era respeitado como compositor, mas como cantor era inferiorizado e até ridicularizado (como até hoje acontece). Seus discos eram admirados pelas melodias e, sobretudo pelas letras, mas eram menosprezados no quesito interpretação.
Porém, a ocasião faz o ladrão, e Chico não se fez de rogado. Caiu em campo e produziu um dos mais belos álbuns dos anos 70. Cada música que ele escolheu tinha uma história, queria dizer algo, significava alguma coisa, ou várias coisas ao mesmo tempo.
Além de reverenciar suas influências, antigos ídolos, ele homenageou amigos e contemporâneos, conseguiu em cada letra dar um recado. Pra quem era esse recado, cabe a você leitor ouvir e decidir.
Para abertura ele escolheu FESTA IMODESTA de Caetano Veloso. Este, após a volta de Londres, gravou com Chico um álbum ao vivo para zerar de vez as picuinhas e maledicências que sempre existiram (por conta dos outros) entre ambos.
Chico então, quis abrir seu disco com um samba de Caetano que relatava uma festa sem qualquer modéstia onde ocorreriam várias homenagens. Anos depois os dois usariam essa mesma música para abrir o disco do programa de televisão que fizeram na Globo no qual recebiam vários convidados.
Permanecendo na Bahia, na faixa dois Chico louva Gilberto Gil no lamento, COPO VAZIO. Talvez seja uma das mais impressionantes letras de Gil; “é sempre bom lembrar... que um copo vazio, esta cheio de ar. Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho, que o vinho busca ocupar o lugar da dor.”
Para quem, até hoje critica a capacidade de interpretação, de emocionar cantando de Chico Buarque, escute essa versão. Toda a tristeza do momento vivido por ele estão lá, o arranjo é triste e sensacional e a letra de Gil é nada menos que espetacular.
Caminhando pelo disco Chico cita Noel Rosa na lindíssima FILOSOFIA, canção onde ele desabafa só encontrar consolo na filosofia, e chora ter de seguir na vida até alguém dele gostar. Chico sempre foi comparado a Noel, e nada melhor que honrá-lo com uma música, já que bebera muito na fonte do poeta da Vila.
De Toquinho e Vinícius seus fiéis amigos e parceiros, com os quais fez SAMBA DE ORLY e outras, ele gravou O FILHO QUE EU QUERO TER. Canção feita aqui no Recife, na praia de Boa Viagem quando Toquinho contava para Vinícius, entre um e vários whiskys, da vontade de ter um filho. Chico também tinha e cantou magistralmente a linda canção.
No meio encontramos LÍGIA, do “seu maestro soberano” Antônio Brasileiro(Tom Jobim).
Essa música é sensacional. Tom conseguiu encher de mentiras os versos, citar as praias da zona sul carioca, colocar programas banais de forma tão bonita e, ainda por cima, no fim de cada estrofe encerrar a frase musical com o nome da musa inspiradora. Vale muito ouvir.
Entram também no disco o já famoso samba de Geraldo Pereira SEM COMPROMISSO, Dorival Caymmi com VOCÊ NÃO SABE AMAR e, num claro recado para a censura não mais perturbá-lo, Chico manda ME DEIXE MUDO de Walter Franco.
Acontece que até agora, Chico só tinha dado uma finta seca na censura, na ditadura e naqueles que dele duvidavam. O drible desconcertante, daquele do cara cair sentado, estava por vir. Como a repressão o enfurecia, mesmo gravando outros autores ele não parava de compor. Um dia chegou no estúdio com um samba novo. Um samba que sintetizava sua angústia, todo o tormento que estava vivendo. Ele tinha que gravá-lo, Chico tinha de expressar. Sabia que se mandasse a letra para censura ela não passaria, então, novamente, fez o simples. Criou um pseudônimo.
Percebam que pseudônimo num disco todo de autoria sua, chamaria a atenção. Mas um nome diferente, um nomezinho só, no meio de tantos nomes distintos da MPB, poderia passar. E como a ditadura não era muito sortida de inteligências, a música passou. Ta lá, faixa sete se não me engano - ACORDA AMOR.
Chico narra com maestria e até humor seu momento. Fala de pesadelo, aflição, de estar sendo importunado na sua casa pelos “homens”, pela “dura”, e ele lá de pijama clamando: Chame o ladrão! Chame o ladrão! No fim, já em desconsolo, preso, e sem a chegada do ladrão para lhe salvar, Chico dá o recado para sua senhora: “se eu demorar uns meses, convém ás vezes, você sofrer. Mas findo um ano e eu não vindo, ponha a roupa de domingo e pode me esquecer...” O mestre conseguiu falar de tudo. De si, dos censurados, da repressão, do medo que abatia todos e até dos desaparecidos políticos, porque naquela época se o cara sumisse muito tempo, pode esquecer... Gênio é Gênio, Chico deu asas a seu alter-ego: nascia JULINHO DE ADELAIDE.
Para finalizar esse grande disco, nada melhor que um dos maiores sambas de Paulinho da Viola, o samba que só pelo nome já dizia tudo. Chico escolheu para fechar, dar nome ao seu disco e a síntese do seu momento, o clássico SINAL FECHADO.
O arranjo feito para essa música é uma obra prima. A canção, simples de conteúdo, mas com o arranjo e interpretação magnífica de Chico, ganha contornos de dubiedade;
Será que queria dizer alguma coisa? Será que existiam metáforas escondidas?
Isso, leitor, você só vai saber ouvindo, garanto que não se arrependerá.
Meu amigo Gustavo Ramos, grande músico, acha essa a melhor versão já feita para esse clássico, e olhe que existem várias, inclusive com Maria Bethânia e Chico juntos. Todavia, Guga fecha com essa versão solo de Sinal Fechado.
Por fim, resta dizer que todo disco foi liberado e foi um tremendo sucesso. A ditadura levou meses para sacar quem era Julinho de Adelaide. E Chico, após anos de perseguição pode aproveitar. Mas, malandro é malandro, e ele não abria mão da malandragem.
No show de estréia do disco Sinal Fechado, quis incluir uma nova musiquinha daquele compositor que lançara Acorda Amor no seu disco. Cantou em todos os shows um novo sucesso seu, ops, de Julinho de Adeláide – JORGE MARAVILHA.
Aquela que grita para quem quiser ouvir: “VOCÊ NÃO GOSTA DE MIM... MAS SUA FILHA GOSTA!!!”
Foi ou não um grande drible?!
2 comentários:
que aula!
adoro! pare não, nunca!
bjo,
BanDida.
Poucos conseguem fazer relatos tão verdadeiros...onde interpretação e participação se confudem.
Sucesso.
Nara
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