sexta-feira, 26 de outubro de 2007

PAULO FRANCIS VAI PRO CÉU


Para Ernani.

Outro dia conversava com o nosso Procurador Ernani Médicis (o que será que ele tanto procura), e este me dizia que quando queria me elogiar citava uma certa veia jornalística minha na hora de escrever. Elogio maior não poderia haver, contudo, ratifico que não sou jornalista. Não tenho qualquer obrigação com os fatos, escrevo o que penso vejo e sinto, e se os fatos forem contra mim, pior para eles, como diria o outro.


Mas enfim, como em conversa de bar a gente nunca consegue, por completo, dizer o que pensa, resolvi hoje escrever sobre a verdadeira influência que tive para gostar de botar coisas no papel, a qual, por incrível que pareça, era jornalista: Paulo Francis.

Esse não teve a metade da genialidade de vários escritores, porém, como era bom lê-lo. Eu o lia naquela idade de formação, muitas vezes bailava nos assuntos, mas a verve, o estilo e acima a qualidade dos textos me marcaram. Hoje leio Jabor, Elio Gaspari, Noblat e vejo muito pouco ou quase nada. Claro que são bons, mas não sei se ficarão na memória. Não vou nem falar de Diogo Mainardi porque, pra quem vai citar Paulo Francis, Diogo não passa de um revoltadinho caricato.

Francis começou a escrever em 1957, aos 27 anos. Foi repórter, editor, colunista, diretor, editorialista. Cobrava caro pra trabalhar e quando em cargo de chefia era generoso com o dinheiro do patrão. Achava que jornalista deveria ganhar bem. Dizia que nunca foi "fichinha" começou assinando, e daí em diante nunca lhe devolveram ao anonimato. Era uma espécie rara na imprensa brasileira o "polemista vocacional". Formou seu público tratando-o como adulto. O que alguns chamavam de ofensa ele chamava de crítica, crítica não é raiva, é apenas crítica, dizia. "As pessoas deviam se ofender com o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom ás vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito".

Aos que acham Paulo Francis arrogante, prepotente, racista e etc. Digo-lhes que ele era tudo isso e muito mais, entretanto, nunca se vendeu, era generoso e afetuoso mas não mostrava isso. Queria o debate tão somente no plano das idéias, seja com amigos ou inimigos. Certa vez, escreveu:" Dizem que o negócio é viver ; prefiro ler. Só me sinto absolutamente feliz quando estou em casa, sozinho, lendo. Com a empregada muda e fornecendo cafezinho de meia em meia hora. Minhas amizades são pouquíssimas, a idéia de ter uma massa ululando a cada palavra minha me horroriza além de qualquer descrição".

Em 1971 se mandou pra Nova Iorque e nunca mais voltou. Brigou com a Esquerda, esculhambou a Direita. Dizia que a melhor propaganda anti-comunista era deixar um comunista falar, ou que Marx falando de dinheiro era igual a padre falando de sexo. Em 1994 escreveu que o Brasil teve como últimos presidentes um poeta, um profeta e um pateta, sobre a trinca Sarney, Collor e Itamar e que Bill Clinton sairia algemado da Casa Branca (quase acertou). Certa vez, o chamaram para um revisão da bandeira do Brasil, convite que declinou com a seguinte resposta:
- “Mas é tão simples, é só trocar os símbolos por um bumba meu boi com partes das bandeiras do Flamengo e do Corinthians". Seu humor era debochado e certeiro. Sobre o capitalismo dizia que homem que não tem dinheiro ou mulher não pode pensar em outra coisa. Sobre o feminismo, que mulher feia é proletariado insolúvel.

Tinha várias admirações, a maioria literária. Gostava de ópera mas detestava balé. Com cultura não tinha muita paciência para modismos e novidades, seu bordão era : "Se eu não conheço, não presta". Sobre cantores novatos sempre falava com ceticismo : " Mais um que desponta para o anonimato" ou " Os cisnes antes de morrer cantam. Tem gente que devia morrer antes de cantar" Caetano Veloso admirador confesso de Francis discutiu muito com ele. Certa vez o baiano entrevistou Mick Jagger para um programa brasileiro. Francis achou Caetano subserviente e fulminou: ”Brasileiro se deslumbra fácil, aceita fazer só pergunta combinada com entrevistado para não perder o contato".
Na época do tropicalismo, desbunde e onda hippie escreveu referindo-se a Caetano, Gal, Gil, Bethânia e outros... :" Esses baianos invadiram o Rio pra cantar : " AH, MAS QUE SAUDADE EU TENHO DA BAHIA... Bem, se é por falta de adeus, pt saudações."

Paulo Francis quando era bom era ótimo, mas quando era mau, era excepcional. Quando Caio Blinder discordava dele no Manhattan Connection ele esnobava: "Calma Caio, calma. É só uma opinião, mas se você não concorda você é um idiota”. Suas frases, muitas vezes adaptadas de grandes autores eram definitivas como : " Todo otimista é um mal informado", ou " Quem sabe faz quem não sabe leciona". Sobre seus luxos ; " Só um imbecil escreve por outra coisa que não seja dinheiro" ou sobre a mediocridade alheia : " A ignorância é a maior multinacional do mundo".No capítulo álcool falava : “Bebi muito anos. Para ficar bêbado. Não posso imaginar outra razão. Bebedor social é coisa de pequeno burguês".
Sobre drogas deu uma única entrevista:

- Francis você já usou drogas ?
- Todas.
- E já teve problemas com isso ?
- Imagina. Tem de ser muito imbecil para se deixar viciar.


No fundo Francis era um sentimental. Fernando Henrique foi procurá-lo em Nova Iorque antes de seu primeiro encontro com Bill Clinton, Francis foi taxativo : “Fernando, nunca se coloque em posição de inferioridade. Você é mais inteligente e tem uma educação muito superior a dele". Sobre a arte de escrever dizia : "Como todos que escrevem não gosto de escrever, mas me sinto infeliz, mais do que o habitual, se não escrevo". Sobre suas mudanças de opinião ocorridas pelo caminho, gostava de deixar claro ; " A incoerência é uma característica dos talentosos, só os medíocres nunca mudam de opinião".

É isso Ernani. Sei que você já o conhecia, mas essa homenagem eu tinha de prestar.

Por fim reproduzo uma parte da crônica de despedida de Paulo Francis do PASQUIM, rumo a Nova Iorque, em 1971, que gosto muito :

" O pior não é a mentira ou a verdade. Isso nem existe filosoficamente. E só 0,1% da população sabe disso. O duro é conviver com a meia verdade ou a meia mentira, baseadas em verdades e mentiras falsas, que inventamos para fazer de conta que estamos vivos. Matamos o tempo, mas é o tempo quem nos enterra. A imprecisão é a constante de nossas vidas. E as pessoas se refugiam delas nas paixões, uma maneira barata de sintetizar em algo pseudo-sólido a nossa fluidez de tobogã sem medida. Meninos, sobrevivi. Não me vendi, ás vezes com muito álcool chego a me tolerar. E bebo, naturalmente, para tornar as outras pessoas mais interessantes. Até a próxima".

Abraços Ernani,

Marcelo Simões.

3 comentários:

Anônimo disse...

Po marcelinho, podia ter rolado uma dedicatória pra mim também...porque será?!
ass: Do Mal.

Anônimo disse...

Muito boa... Só não concordo com a opnião sobre o Mainardi...

Marcelo Simões disse...

Do Mal,
Logo mais escreverei sobre WILCO, a crítica será inteirinha dedicada á vc.

Já Wilson, a crônica escrita sobre Francis, revela, tão somente, minha opinião particular, exclusiva. As postagens são de inteira reponsabilidade de quem assina os textos. Não necessariamente refletem a opinião dos donos do blog.
Isto posto, agradeço seu comentário. Prometo tentar ver mais o Manhattan Connection para enxergar mais em Diogo, do que apenas sua página semanal na Veja, ok ?!